Artigo 5 - Design, O Poder do Belo
A arte de fazer coisas belas, o design, tornou-se
um componente vital da economia moderna. O termo design,
da língua inglesa, está dicionarizado
em português e definido pelo Dicionário
Aurélio como "concepção
de um projeto ou modelo". No mercado de trabalho
em empresas de ponta e altamente competitivas, os
designers são hoje mais bem pagos e admirados
do que os engenheiros e administradores. Um dos primeiros
estudiosos a detectar e explicitar essa tendência
foi o guru econômico americano Tom Peters. Diz
ele: "Posso escrever sem esforço uma centena
de situações em que o design é
decisivo no mundo. Ele varia da aparência física
de um quarto ao artista que faz a maquiagem de um
apresentador de televisão. As pausas e os improvisos
brilhantes nos discursos de Winston Churchill e os
computadores da Apple são materializações
de excelência no design. O design é tudo
aquilo que torna uma coisa cotidiana mais usável
ou desejável. Eu diria que viveremos daqui
para a frente em um mundo em que a forma das coisas
adquirirá mais e mais poder".
Ao
americano Steve Jobs, o chefão da empresa de
computadores Apple, citada por Tom Peters, atribui-se
o feito de ter salvado sua companhia da falência
simplesmente desenhando produtos irresistíveis.
O mais recentes deles, o iPod, um pequeno tocador
de músicas em MP3, tornou-se uma mania mundial
e a grande fonte de receita da empresa de Jobs, superando
os computadores Mac em unidades vendidas. Jobs tem
uma definição de design que resume como
poucos sua importância no mundo atual: "O
design é a alma das criações
humanas". Pode ser um sacrilégio, mas,
se não é a alma, o desenho de um produto
tornou-se nos dias de hoje o principal componente
de sua trajetória no mercado. A elevação
de uma peça qualquer à condição
de ícone e sonho de consumo ou seu esquecimento
nas prateleiras das lojas depende muito mais da forma
que de outras características. Diz Peters:
"O design já foi apenas um departamento
das indústrias onde se dava o acabamento aos
produtos. Hoje ele é, ou pelo menos deveria
ser, o centro das atenções de todos.
O desenho da gravata do executivo principal, a forma
da linha de montagem, a capacidade de comunicação
da logomarca da companhia ou a sinalização
das portas de emergência fazem parte da mesma
mensagem que a empresa emite para o público
externo. É por esses sinais aparentes que ela
será julgada".
Até
pouco tempo atrás, a palavra design evocava
produtos de aparência extravagante e, sobretudo,
caros. O conceito está hoje totalmente mudado.
Pela primeira vez na história, o cuidado estético
com objetos, aparelhos, prédios e ambientes
não está restrito a uma elite social
econômica ou artística, limitado a alguns
segmentos da indústria, nem está sendo
feito, usado ou adquirido para passar a idéia
apenas de refinamento. O apelo estético está
em todos os lugares, em todas as coisas e, felizmente,
se tornou acessível a quase todos. A origem
dessa popularização repousa, em boa
parte, numa mudança de percepção
por parte da indústria e do comércio.
Tradicionalmente, a forma de um produto era mero complemento
de sua funcionalidade. No desenvolvimento de um objeto
utilitário ou um aparelho, apostavam-se todas
as fichas em sua qualidade, eficiência e durabilidade
– a aparência era um detalhe adicionado
no fim do processo. Criar produtos nos quais a probabilidade
de surgir defeitos era próxima de zero foi
o mantra entoado pelas corporações.
O resultado é que, em inúmeros segmentos,
os produtos concorrentes ficaram muito semelhantes.
Como se diferenciar e chamar a atenção
do consumidor para determinada marca? Resposta: fazendo
com que o produto, além de cumprir bem sua
função específica, atraia pela
beleza, ou pelo estilo inusitado, ou por uma aparência
identificada com o próprio jeito de ser e de
pensar de seu usuário. Em suma, pelo design.
Essa
nova configuração é a economia
do design. Apesar do nome, não se trata de
um mero fenômeno industrial e comercial, e sim
de uma inédita confluência de tecnologia
e cultura. A própria expressão design
superou a definição original, ligada
a peças únicas de decoração,
e abrange agora um espaço amplo. Serve para
tornar os ambientes de trabalho mais prazerosos, melhorando
a produtividade das empresas. Também está
presente no hermético desenho dos circuitos
eletrônicos no chip de memória dos computadores.
"Foi o design que conseguiu comprimir dentro
de uma ambulância e, mais tarde, de um helicóptero
os aparelhos imprescindíveis para emergências
médicas", diz Flávio Murachovsky,
vice-presidente de tecnologia do Hospital Israelita
Albert Einstein, em São Paulo. Os objetos de
design passaram a ser consumidos em larga escala,
tornando o cotidiano das pessoas mais agradável.
"Depois de passar um século focados em
outros objetivos, como resolver problemas de fabricação
e baixar custos, estamos cada vez mais engajados em
tornar nosso mundo especial, e o design é fundamental
para isso", pondera a filósofa americana
Ellen Dissanayake, da Universidade de Maryland.
Se
antes o design era uma criação de ateliês,
hoje ele representa o bom gosto em escala industrial.
No novo xadrez da economia do design, os jogadores
são as grandes corporações, como
a Philips e a Sony. Mesmo os grandes designers que
antes desenhavam para poucos clientes endinheirados,
como o francês Philippe Starck e o americano
Michael Graves, hoje trabalham para empresas que fabricam
suas criações em grande escala e as
distribuem para lojas de departamentos e supermercados
– e, graças à escala, com preços
em conta. Com sua popularização, o design
tornou-se um combustível de peso das economias.
Os
designers são a parte mais visível de
uma nova e cada vez mais influente categoria de profissionais,
a daqueles que usam a criatividade como fator-chave
nos negócios, na educação, na
medicina, no direito ou em qualquer outra profissão.
Autor de The Rise of the Creative Class (A Ascensão
da Classe Criativa), o americano Richard Florida,
professor de economia na Universidade Carnegie Mellon,
diz que são eles que estão dando forma
ao modo como trabalhamos, aos nossos valores e desejos
– ou seja, tornaram-se a grande "filosofia
visual" do nosso cotidiano. "Como essa criatividade
é o motor do crescimento econômico, em
termos de influência a classe criativa está
se tornando a classe dominante em nossa sociedade",
escreveu Florida.
Nos
anos 20, a presidência das grandes corporações
era em geral ocupada por um engenheiro. Nos anos 50,
o posto muito provavelmente caía no colo de
um dos administradores mais brilhantes da empresa.
Os advogados reinaram nas décadas de 60 e 70.
Nos anos 80, foi a vez dos homens de marketing. Hoje,
o líder empresarial precisa ter sólido
vínculo com o design e o processo criativo
– de outra forma, sua empresa arrisca-se a perder
a sintonia fina com o mercado.
O
aumento na oferta de produtos com desenho inovador
acabou por criar uma via de mão dupla: o consumidor
também passou a exigir objetos mais bonitos
e com os quais se identifique. "Vivemos uma época
única, em que a estética se tornou prioridade
porque ficou mais fácil enfeitar nosso dia-a-dia,
nossa vida, e desejamos fazê-lo", disse
a VEJA a jornalista americana Virginia Postrel, autora
do recém-lançado livro The Substance
of Style – How the Rise of Aesthetic Value Is
Remaking Commerce, Culture & Consciousness (A
Essência do Estilo – Como a Valorização
da Estética Está Mudando o Comércio,
a Cultura e a Consciência). Virginia chama atenção
para o fato de que a revolução do design
se deu não apenas nos produtos industriais,
mas também nos ambientes que freqüentamos
e nos quais vivemos. Foi justamente ao compreender
o papel vital do ambiente na experiência do
consumidor que a IDEO, baseada na Califórnia,
se tornou a mais inovadora e requisitada empresa de
seu ramo nos Estados Unidos. Além de criar
produtos e embalagens, ela se especializou em organizar
espaços físicos.
Uma
de suas experiências mais interessantes ocorreu
com a maior rede de hospitais americanos, a Kaiser
Permanente. Para resolver uma série de queixas
e problemas ligados ao atendimento, os executivos
da Kaiser viam a necessidade de construir novos e
caríssimos edifícios. Para ajudá-los
a projetar as novas instalações, contrataram
a IDEO e logo tiveram uma surpresa. A firma redesenhou
os espaços, criando salas de espera mais confortáveis
e consultórios menos gélidos. O problema
da Kaiser foi resolvido sem a construção
de um único prédio novo. "A IDEO
nos mostrou que precisamos construir experiências
humanas e não edifícios", disse
Adam Nemer, da Kaiser, à revista Business Week,
que estampou a IDEO na capa de uma de suas últimas
edições.
Na
arquitetura, os novos cartões-postais que surgem
nas grandes metrópoles mundiais mostram que
hoje a forma é tão – ou mais –
importante que a função. E que a combinação
de ambas é imprescindível para o sucesso.
Milhares de pessoas vão semanalmente visitar
o museu Guggenheim, inaugurado em 1997 em Bilbao,
e todos o conhecem por fotografias, mas... alguém
é capaz de citar uma única obra que
ele abriga? Sabe-se que o Louvre, em Paris, guarda
a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, assim como o Museu
do Prado, em Madri, hospeda a melhor produção
pictórica de Francisco Goya. Quanto ao Guggenheim
de Bilbao, sua fama reside na construção,
e não em seu acervo. Foram as silhuetas acintosamente
assimétricas criadas pelo arquiteto canadense
Frank Gehry que transformaram a maior cidade do País
Basco num pólo turístico internacional.
Monumentos
como esses inevitavelmente convidam à reflexão
de que, na era do design, os arquitetos conquistam
mais reconhecimento e são mais famosos do que
os pintores ou escultores. "O grande desafio
do arquiteto contemporâneo é construir
obras capazes de atrair cada vez mais pessoas",
afirma Ruy Ohtake, que vem ajudando a transformar
a paisagem de São Paulo com seus projetos ousados.
Entre os prédios erguidos por Ohtake está
um hotel em forma de meia-lua (ou meia melancia, dependendo
do observador) que causa espanto e faz com que os
pedestres (e motoristas) se detenham para apreciá-lo.
"Hoje há uma procura cada vez maior pela
beleza, as pessoas querem lugares bonitos para morar
ou visitar", ele completa. Como se pode deduzir,
boa parte das transformações no mundo
do design se beneficiou de recentes e significativos
avanços na tecnologia. As obras de Frank Gehry
só estão de pé graças
à utilização do Catia, um software
destinado à construção de aeronaves
militares que o arquiteto adaptou para criar suas
curvas e ondulações. De outra forma,
os calculistas levariam anos para projetar cada um
de seus prédios.
O
mesmo se dá com muito mais força no
mundo dos automóveis. "Sem a evolução
da computação gráfica, a partir
dos anos 90, não seria possível construir
os elegantes faróis atuais sem perda de intensidade
na transmissão da luz", informa Wagner
Dias, responsável pelo setor de design da General
Motors do Brasil. A tecnologia avançou também
na quantidade e na qualidade de materiais disponíveis.
"Há hoje milhares de tipos de plástico,
o que permite utilizações desse material
nunca antes imaginadas", disse a VEJA Bill Moggridge,
um dos fundadores da IDEO.
O
design industrial surgiu junto com a Revolução
Industrial. Os primeiros designers, a maioria artistas,
tinham a tarefa de transformar produtos recém-lançados
em artefatos agradáveis ao olhar. Afinal, os
ornamentos sempre foram um alimento para o espírito
humano. Eles não criavam novas formas, apenas
repetiam as já conhecidas inspirados principalmente
em linhas neoclássicas e gregas. A primeira
grande evolução no design ocorreu na
Alemanha dos anos 20, com o surgimento da chamada
escola Bauhaus. Fiéis ao espírito modernista
da época, seus ideólogos, como Walter
Gropius, defendiam produtos despidos de qualquer enfeite:
o importante era que a forma servisse à função.
"Ornamento é crime", decretou certa
vez Peter Behrens, um dos designers responsáveis
pelas formas que vários utensílios de
cozinha até hoje possuem. A segunda fase marcante
do design ocorreu nos anos 50. Os avanços tecnológicos
da II Guerra permitiram que se criassem produtos mais
eficientes com custos mais baixos. Foi a época
de popularização dos eletrodomésticos,
que ganharam uma aparência mais "moderna",
compatível com o notável crescimento
econômico dos Estados Unidos. Entre as décadas
de 60 e 90, o design acompanhou as mudanças
de comportamento na sociedade e beneficiou-se das
novas tecnologias, principalmente nos materiais –
mas continuou atrelado à funcionalidade. "Sempre
defendi que um produto tinha de ser sobretudo funcional,
mas hoje admito que a beleza passou a ser uma prioridade
do consumidor", disse a VEJA Donald Norman, professor
de psicologia da Universidade Northwestern, fundador
da firma de consultoria Nielsen Norman e autor do
livro Emotional Design – Why We Love (or Hate)
Everyday Things (Design Emocional – Por que
Adoramos [ou Odiamos] os Objetos do Dia-a-Dia). A
liberdade hoje desfrutada pelos designers, arquitetos
e estilistas representa não apenas uma tendência,
mas uma grande virada ideológica. Através
da história, os profissionais dessas áreas
acreditavam que um único padrão estético
era o correto – o estilo em voga traduzia a
verdade e a virtude, e quem dele duvidasse poderia
ser tachado de louco. "Os detratores do meu projeto
devem ser neuróticos", desabafou certa
vez Walter Gropius, diante das críticas a um
dormitório que idealizara para a Universidade
Harvard. Hoje a liberdade de criação
é total. Mas a capacidade de rejeição
do público também não conhece
limites. Da tensão entre essas duas forças
é que surgem aquelas poucas formas que vão
marcar seu lugar na história.
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